quarta-feira, 27 de março de 2013

Young ressalta que Comissão da Verdade não é espaço para “revanchismo”



Com a participação do vereador Ricardo Young (PPS), foi reinstalada na manhã desta terça-feira (26/3) a Comissão da Verdade Vladimir Herzog da Câmara Municipal. O colegiado terá a missão de investigar e trazer à luz violações aos direitos humanos cometidas durante a Ditadura Militar (64 a 85). 

A Comissão tem o desafio de dar continuidade ao trabalho que começou em 2012, quando a mesma Comissão recomendou, em seu relatório final, o pedido de aprofundar as investigações sobre os sustentáculos da repressão, sobretudo da Operação Bandeirantes (Oban), e esclarecer a afirmação de que arquivos da Ditadura teriam sido queimados.

Cabe a ela cobrar a Prefeitura de São Paulo que termine a identificação das ossadas encontradas na Vala de Perus em 1990. O trabalho realizado nos anos seguintes identificou que ali repousavam corpos de militantes mortos pelos grupos de extermínio do regime.

Para Ricardo Young, a Comissão da Verdade não tem qualquer objetivo revanchista, mas apenas e tão somente contribuir para esclarecer todas as questões ainda obscuras e dar continuidade a todo o trabalho que foi feito para a identificação dos desaparecidos no período da Ditadura.

“Essa é uma dívida que a cidade tem com as famílias dos presos políticos e desaparecidos. É bom lembrar que a família de Wladimir Herzog conseguiu na Justiça que fosse modificada a sua Certidão de Óbito. Imaginem o quanto foi importante, para essa família que tanto sofreu, o reconhecimento de que o Herzog não se suicidou, mas foi vítima de tortura durante a Ditadura”.

Segundo ele, integrar a Comissão da Verdade é colocar-se a serviço do esclarecimento dessas questões “obscuras”. “Apenas com absoluta transparência e clareza, e ouvindo todos os lados, podemos derrubar os mitos que envolvem o encaminhamento dessas questões, que são graves, históricas e das quais o Brasil precisa se libertar”, disse.

Ademais, reconheceu a importância de o PPS integrar a Comissão da Verdade paulistana e fez uma menção do presidente de honra da legenda, o ex-vereador cassado Moacir Longo, que foi torturado nas dependências do DOI-CODI em 72. 

“O Partido Popular Socialista é o legítimo herdeiro e representante do Partido Comunista Brasileiro. Em seus quadros, abrigou o ex-vereador Moacir Longo, que também foi preso e resistiu às torturas nos porões da ditadura e hoje é o Presidente de Honra do Partido”. 

Os parlamentares escolheram, por unanimidade, os nomes de Gilberto Natalini (PV) e Juliana Cardoso (PT) para presidente e vice-presidente da Comissão, respectivamente. O vereador Mário Covas Neto (PSDB) será o relator. Também participam da Comissão os vereadores Police Neto (PSD), Laercio Benko (PHS) e Calvo (PMDB). 

Veja a íntegra do discurso de Ricardo Young no plenário da Câmara: 

"Sr. Presidente, Sras. e Srs. Vereadores, telespectadores da TV Câmara São Paulo, assisti agora há pouco a polêmica em torno da Salva de Prata, da Rota e também ouvi atentamente o nobre Vereador Toninho Vespoli, além da fala do nosso prezado Vereador Coronel Telhada.

Gostaria de dizer que tanto para o nobre Vereador Coronel Telhada como para o Vereador Coronel Camilo, que temos de compreender a posição do nosso nobre colega e também Vereador Toninho Vespoli no sentido de que a sociedade civil não está feliz com essa Salva de Prata.

Não está feliz porque a imagem da ROTA - infelizmente e apesar de todos os desagravos que vocês merecidamente têm feito - não é boa na nossa sociedade. O passado da ROTA é um passado muito difícil, e, nos piores anos da ditadura, havia absoluta impunidade. Houve um enorme progresso, e acho que os nobres Vereadores Coronel Camilo e Coronel Telhada se preocuparam em nos dizer quais progressos têm havido, inclusive na filosofia na Polícia Militar e na forma como hoje a Polícia Militar e a ROTA assimilam os princípios dos direitos humanos. Mas daí se justificar a concessão de uma salva de prata enquanto o conjunto da sociedade vem questionando tal medida, penso que esta Casa precisa refletir a respeito.

Acredito que esse problema se dá, nobres Vereadores Coronel Camilo e Coronel Telhada, muito em função da dificuldade que a própria ROTA tem de comunicar as mudanças que têm havido na própria corporação, na forma como os policiais são capacitados e na forma como a Polícia Militar vem olhando para os direitos humanos e contribuindo para a diminuição das arbitrariedades na polícia.

Assim, gostaria de recomendar aos Colegas e à Casa que, democraticamente, assim como tem sido feito até agora, possamos aprofundar essa discussão. É importante que a sociedade conheça todos os aspectos da questão. Assim como são importantes as justificativas que movem este Vereador, o Vereador Natalini e o Vereador Vespoli, também é importante conhecer todas as justificativas e as razões pelas quais V.Exas. acham que a ROTA merece essa salva de prata.

Quero usar o restante do meu tempo para dizer que muito me honra ter sido integrado à Comissão da Verdade. Agradeço ao PTB, que, por meio de seu Líder, Vereador Paulo Frange, ofereceu sua vaga para que o PPS me indicasse. A Comissão da Verdade, como já foi dito pelo seu Presidente, Vereador Natalini, não tem qualquer objetivo revanchista. Ao contrário, quer contribuir para esclarecer todas as questões ainda obscuras. Além disso, temos de dar continuidade a todo o trabalho que foi feito para a identificação dos desaparecidos no período da ditadura. Essa é uma dívida que a Cidade tem com as famílias dos presos políticos e desaparecidos naquela época. É bom lembrar que a família de Wladimir Herzog conseguiu na Justiça que fosse modificada sua certidão de óbito. Imaginem o quanto foi importante, para essa família que tanto sofreu, o reconhecimento de que Wladimir Herzog não se suicidou, mas foi vítima de tortura durante o período da ditadura.

O Partido Popular Socialista é o legítimo herdeiro e representante do Partido Comunista Brasileiro. Em seus quadros, abrigou o ex-Vereador Moacir Longo, que também foi preso e resistiu às torturas nos porões da ditadura e hoje é o Presidente de Honra do Partido. Integrar a Comissão da Verdade é me colocar a serviço, e o partido se coloca a serviço do esclarecimento dessas questões, porque apenas com absoluta transparência e clareza e ouvindo todos os lados podemos derrubar os mitos que envolvem o encaminhamento dessas questões, que são graves, históricas e das quais o Brasil precisa se libertar. Muito obrigado, Sr. Presidente".

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